e-squina 20.10.09
e-squina 28.8.09
Coutinho não quer morrer

Coutinho esquiva postes e gente na estreita calçada direita da rua Gonçalves Dias, Centro do Rio adentro. Pára por um cafezinho no stand da entrada de uma galeria comercial e logo retoma o trajeto. Não parece apressado, mas passa, bebe e vai.
Será que ele tem um filme novo dentro daquela pasta? Alguma pequena revolução no que tanto gostariam de chamar de realidade.doc, balançando entre anotações, papéis, burocracías cinemato-governamentais e alguns cadernos de jornal? Será que ele queimou o beiço naquele espresso?
Era o próprio coelho, só que sem as orelhas. Eu, uma Alice barbada na curiosidade mórbida. Mas não. Devia estar carregando só Moscou. Tivesse carregando alguma crítica, algumas semanas ao longo certamente teria mais tempo. Quem sabe eu até puxava um papo entre uma bicada e outra em um companheiro café esfumaçante? No dele, quem sabe?
Prudentes, contentamo-nos com a idéia de um Coutinho andando empolgado. Moscou, se realmente estivesse na pasta do cineasta, seria de bom peso. Ao menos para um senhor comprometido com a idéia de não morrer. É o que preocupa Eduardo Coutinho: Não morrer.
Ao menos é o que diz ao final de Moscou - que ainda não assistí - segundo seu amigo Eduardo Escorel, que a Folha de S. Paulo acusa de ter-lhe acertado um tiro nas costas.
A realidade virtual do documentarismo brasileiro está definitivamente em cheque. Eduardo Coutinho vive.Não se sabe exatamente como, mas vive. Saravá.
http://ilustradanocinema.
http://jcbernardet.blog.uol.
e-squina 28.7.09
Ahab
O mar revolto aos tapas me castiga o casco, mas cuspo ao fundo e me delicío com as ondas a se espatifarem mortas na madeira velha de meu bote. E quando cambaleia o horizonte a tentar me marear, escarro e rasgo o asco que me amarra a garganta e me entope as vias de náusea pelo oceano de marolas. Não há nada que a fedentina da carcaça de cachalote não cure. Sorrío, cruel, feliz marinheiro sob uma promessa, condenado à imensidão inconsistente.e-squina 22.6.09
A revolução não será twitada (se depender da Nokia-Siemens)
Correspondente do site Digiactive no Teerã, Hamid Tehrani avisa que a revolução não está sendo "twitada", como interpretam meios de comunicação ocidentais.Tehrani lembra que as plataformas de interatividade (Twitter, Facebook, blogs), filtrados pelo governo iraniano (aprendemos hoje que a tecnologia empregada seria fornecida pela joint-venture ocidental Nokia-Siemens!), não representam o fórum de convocação às últimas grandes manifestações.
Se a revolução não está sendo organizada no dinamismo das ferramentas de interação, qual é o fator de agregação da massa descontente com os resultados das eleições presidenciais?
Contrariando a empolgante tése do papel da Internet na insurgência popular, Tehrani distingue no Digiactive a natureza do conteúdo veiculado no lado ocidental -- e cuja repercussão interna se faz inviável graças inclusive à inteligência tecnológica adquirida com os mascates da Nokia, por exemplo-- dizendo que o conteúdo produzido e repercutido não passa do jornalismo-cidadão do tipo exportação, nunca um meio de convocar o povo à sucessão de manifestações que desafiam mesmo o Aiatolá.
Entende que o conteúdo que nos chega do Irã é meramente documental, posterior, efêmero como formador de consciência nacional.
As próprias campanhas são encarregadas de postar as convocações em seus sites, diz Tehrani: "Primeiro publicam no Kalamhe e no Ghalam News. A web 1.o, assim como os métodos totalmente off-line, são tão importantes quanto as ferramentas 2.0, ainda que as últimas tenham recebido muito mais atenção."
Haveria, no entanto, uma preocupação grande do governo de que não se popularizem mártires, uma atenção especial com o caso da jovem Neda, que teve sua morte filmada e partilhada com o mundo graças a uma câmera de celular. Levando-se em conta, por outro lado, a natureza da tecnologia empregada pelo governo iraniano para amputar os esforços da insurreição oposicionista, logo se deduz que um governo tão bem equipado de tecnologias de interceptação e censura eficientes não tem porque preocupar-se com a imagem da potencial mártir circulando internamente.
Para ilustrar o poder de ballayage e censura recém adquiridos pelo governo iraniano, a matéria do site francês Data News de tecnología o compara ao sistema de censura chinês, que colocaria na chinela. Vale lembrar que a "artilharia" internética chinesa provém de uma política de Estado da obsessão em "salvaguardar" a unidade nacional, do vasto domínio chinês, pela consolidação da Defesa, o que tem sido plenamente conquistado desde o fim do século XX graças aos avanços tecnológicos e logísticos.
Isso faz do Irã o numero um em monitoramento popular?
A arapongagem high-tech iraniana funciona pelo "deep packet inspection", DPI, método que torna todo conteúdo P2P interceptável e bloqueável. O DPI permite que se examine tanto a localização do usuário quanto conteúdo dos pacotes de dados, SMS e voz também, tarefa fácil quando a única central de telecomunicações do país é administrada pelo governo. Na China o sistema de monitoramento seria menos sofisticado e não é centralizado como o sistema iraniano.
Marcadores: Ahmadinejad, censura, Irã
e-squina 17.6.09
Diploma
Aproveito a discussão no Congresso sobre a obrigatoriedade do diploma para jornalistas e colo esta definição de reportagem, produto essencial do ofício, feita por uma das mais respeitadas acadêmicas da área, a professora Cremilda Medina.A reportagem é a forma de maior aprofundamento possível da informação social e, por outro lado, é aquela que responde melhor às aspirações de uma democracia contemporânea, com toda a plenitude até mesmo da utopia, o socialismo, ou dentro da modernização capitalista. Pois é justamente a pluralidade de vozes e a pluralidade de significados sobre o imediato e o real que fazem com que a reportagem se torne um instrumento de expansão e instrumentação plena da democracia, uma vez que a democracia é polifônica e polissêmicaPluralidade de vozes, pluralidade de significados e agora um exercício: imaginem como seria estúpido exigir diploma de jornalismo para poder publicar uma reportagem no Brasil quando seu valor está intrínsecamente ligado à polifonía que constitui uma democracia. Como seria o país neste contexto de expansão, explosão da comunicação, onde o acesso à informação estivesse reservado apenas aos jornalistas diplomados?
Cremilda Medina
A obrigatoriedade de diploma para jornalistas parece uma discussão que diz respeito somente à classe, mas não é. O que se discute é o acesso à informação, à liberdade de reportar e ser ouvido. E agora uma proposta: não sejamos jornalistas diplomados, aproveitemos a tecnologia das ferramentas, sejamos todos repórteres.
Portanto, senador João Pedro (PT-AM), cabe o "jeitinho" sim.
Esse "jeitinho" é a voz e o ouvido.
Tudo o que uma democracia precisa.
Marcadores: jornalismo
Uma feijoada, por el amor de dios!
Como se arrasta a vontade de papar uma boa e velha feijú, aquela boa comida de santo que a palavra precipitada insiste em pronunciar nos momentos e circunstâncias mais improváveis: feijoada no metrô, na cadeira, dentro do livro.
São dias e mais dias salivando a boa feijú na ponta da língua, ao longo da entrada de um cigarrinho bem enrolado, no papo cheio de saudades dos velhos compadres esquecidos, ressurgindo na satisfação da imagem de uma camisa do Flamengo de vintém muito bem vestida.
Essa feijoada é batismo da reunião, do alvorecer daquela noite engavetada, no qual nos divertimos como crianças que antecipavam o futuro imaginado, guardado a sete chaves como o tesouro vazio do qual não abriríamos mão nem pela concretização dos tempos mais promissores.
Como diz a música, ou quase, quero morrer numa feijoada de bamba, na cadência bonita do afrossamba, a celebrar a vitória sobre a comida correta, macrobiótica, do alface, da batata britânica e da mesura dietética. Uma feijoada para trepar nas musas como se fossem moças, lindas e descabeladas num sábado em que o sol lhes reservasse o privilégio de alguns raios constantes, apesar das nuvens.
Mergulhar numa feijoada com os dedos numa metade de laranja doce, os beiços ao copo da cachaça branca e espírito num transe de orixás.
Quero papar uma feijú de faca, garfos e dedos, com direito a tudo, unha, papo, rabo, torresmo, som, beiços e suíno. Depois hibernar ao modo dos trópicos, trôpego de satisfação, no limiar do sono de um ritual cumprido ao sol do Rio de Janeiro.
Marcadores: feijoada
e-squina 9.6.09
Incontinência de exclusividade
A grande imprensa queixou-se de ter suas perguntas publicadas pelo Blog da Petrobrás antes que as matérias fossem publicadas. Culpam a empresa pela própria incontinência da exclusividade, fazem um estardalhaço que é repercutido com a fidelidade de um cão alugado na Associação Nacional de Jornais, ANJ.Não é, nunca foi e nunca será, em regime de bom senso, recriminável a veiculação livre do conteúdo de qualquer processo de entrevista concedida à Imprensa. Não faz o menor sentido que uma instituição responda pela divulgação do conteúdo de uma entrevista.
Cabe ao repórter competente a boa mesura dos privilégios ou reservas de informações partilhadas ou não no ato da entrevista.
Marcadores: Petrobras
e-squina 31.5.09
Tempi Suíni
Alegria, alegria... foram divulgadas as cidades sede da copa de 2014 no Brasil.O bolão é alto, e este blog já dá seus três palpites sobre em qual cidade o dinheiro desce pelo ralo e entra pelos canos de abastecimento da rede nacional de corrupção.
Brasília, Rio de Janeiro, Porto Alegre.
O palpite na cidade-rosca lá do Sul, a latejante Porto Alegre, fica por conta da eventual continuidade do regime Crusius. A Copa é só em 2014 mas o tutú entra desde cedo, daí a preocupação. A fezinha em Brasilia, a favorita, é por motivos óbvios. Quanto ao Rio de Janeiro, já que o Tribunal de Contas da União ainda tem um bocado de trabalho com o cálculo de gastos dos Jogos Panamericanos, abrimos mão da cautela de não cometer alguma leviandade considerando que a administração do PAN tenha sido correta.
Marcadores: copa
e-squina 23.5.09
e-squina 18.5.09
Benedetti
Paso que pasarostro que pasabas
qué más quieres
te miro
después me olvidaré
después y sólo
solo y después
seguro que me olvido.
Paso que pasas
rostro que pasabas
qué más quieres
te quiero
te quiero sólo dos
o tres minutos
para quererte más
no tengo tiempo.
Paso que pasas
rostro que pasabas
que más quieres
ay no
ay no me tientes
que si nos tentamos
no nos podremos olvidar
adiós.
Via Ágora com Dazibao no Meio
Marcadores: poesia
e-squina 6.5.09
e-squina 1.5.09
e-squina 26.4.09
Uma entrevista - Houdini
Harry Houdini, entrevistado por Edna Ferber em 1904."Meu segredo? Bem, é um truque meu. Nenhuma casa ou banco estaria protegido contra as mãos leves seu eu o revelasse para o mundo. Eu estaria cometendo um erro grave se o fizesse, pois nada mais estaria em segurança. Quando estive em Londres me ofereceram uma quantia enorme de dinheiro se eu concordasse em lá implantar uma escola de assalto. Ladrões renomados e assaltantes de banco me fizeram a proposta."
e-squina 24.4.09
Leo Marona mandou avisar
O livro é 'Pequenas Biografias Não-Autorizadas" da editora 7letras e terá lançamento também no Rio de Janeiro no dia 9 de Maio, no Bukowski, em Botafogo.
Release aqui.
Marcadores: lançamento
e-squina 23.4.09
Síncope no STF
Há quem festeje o bate-boca entre o ministro Joaquim Barbosa e o presidente do STF, Gilmar Mendes. Dizem ser saudável perceber os pistões do Judiciário pulsando fora dos bastidores para que o povo veja.Eu, como povo, devo dizer que foi constrangedor ver os dois juízes discutindo sobre seus respectívos caráteres e a cota de respeito que se reservam sem apresentar um pingo de objetividade quanto ao assunto em andamento. Dos que gostaram do chilique, certeza de que poucos sequer registraram o que estava sendo debatido.
E o mais curioso é ver o pessoal curtindo o faniquito desses dois pudins gagos que mais pareciam dois membros afetados de uma corte francesa do século dezessete. Se o Gilmar Mendes de fato estava "destruíndo o judiciário" (e deve estar mesmo) como o ministro Barbosa acusou, agora o brasileiro corre o risco de cair na doce ilusão de que aquilo funciona.
Parabéns, Barbosa. Salvou o Judiciário.
e-squina 22.4.09
Um revolucionário multimídia
Correspondente da BBC, documentarista, produtor e ator de um longa metragem listado no IMDB, simpatizante do grupo separatista Unión Juvenil Cruceñista na bolívia, paramilitar da Ustasha treinado pela KGB. Poeta, feminista, anarquista, muçulmano, fã de Johnny Depp, blogueiro.Por enquanto isto é Eduardo Rózsa Flores, húngaro nascido na província de Santa Cruz na Bolívia, um dos três "mercenários" mortos pela polícia boliviana após ter sido apontado pelos serviços de inteligência como mentor de um plano para assassinar o presidente Evo Morales.
Flores e mais dois homens foram mortos na última quinta-feira em um quarto de hotel em Santa Cruz, o departamento do separatismo mais coeso da Bolívia. Um deles era o irlandês Mike Dwyer que conspirava com Flores a morte do presidente, dizem autoridades bolivianas. Contrariando o clichê, não tinha qualquer vínculo com o antigo IRA ou dissidentes, segundo o governo da Irlanda.
Quando se aprende o trajeto brigante de Flores percebe-se de cara a incoerência ideológica. Não era um cara comum. Não tão simples como um guerrilheiro sequestrador das FARC, um paramilitar colombiano nacionalista movido a pó ou um jihaidista inglês da Caeda com uma bomba no sapato. Os últimos meses da carreira foram dedicados ao Islã, à autonomia de Santa Cruz e pela erradicação do comunismo andino de Evo Morales, disse ao canal húngaro em 2008. A divulgação da entrevista teria sido deflagradora da operação boliviana por sua captura.
Desligou-se do Ustasha remanescente, genocidas católicos higienizadores croatas, para ser treinado pelo KGB em Minsk --como o próprio conta no filme "Chico", no qual interpreta a si mesmo-- para depois converter-se ao islamismo e defender, entre outras coisas, a causa palestina em seu blog. Antes disso se enturmou com a Opus Dei, onde diz ter feito grandes amigos.
O blog parece um daqueles ideológicos que coleciona banners de causas. Parece pouco sério. Duvida-se que o guerrilheiro de fato sustentasse o apoio a cada causa com o afinco da estampa. Um banner particularmente chamativo é de um Che Guevara em decomposição onde se lê "Che is dead... get over it" que leva à página do Movimento Libertário Cubano, uma organização anarquista para "articular e incrementar el activismo revolucionario antiautoritario en Cuba".
Sabe-se tudo e nada sobre Eduardo Rozsa Flores, este homem que foi amigo e tradutor de Ilich Ramírez Sánchez, mais conhecido como Carlos, o Chacal.
O próprio em Chico, 2001 [parte 5, sobre como trocou o jornalismo pelas armas]:
Marcadores: Bolivia, Eduardo Rozsa, Evo Morales




